Os Três Irmãos
Conta a lenda que três irmãos viviam numa propriedade rural, como sócios pacíficos dessa gleba situada nos cabeços altos.
Um dia, ao verificarem que os terrenos mais abaixo eram mais produtivos, desceram e formaram uma quintã. Eram muito amigos e trabalhavam alegremente essa terra. Até um dia, depois de terem construído um curral para os animais, deram em zangar-se. Travou-se o banzé e separaram-se. Cada um foi para seu lado, no absurdo da desavença, dividindo-se a grande propriedade pelos três.
Cada qual constituiu a sua família e, com o passar dos anos, as quintãs foram crescendo. Eram elas a do Curral, a do Cabeço e a da Igreja.
O certo é que todos ficaram com a sua parte na recreada paisagem de cerros, pinhais e terras de cultivo.
Houve alguma disputa e discórdia entre os moradores das três quintãs, em tempos que já lá vão.
A Cova do Ladrão
Em tempos que já lá vão há muito, viveu num esconso lugar, em Valdujo, por entre penedias e pinheirais, um eremita, Os poucos que o viram asseveraram que tinha ar de quadrilheiro, como de facto o era: barba suja e crespa que lhe chegava ao peito; olhos encovados que pareciam chispar labaredas; tronco alto e esquelético, dentes ainda mais amarelos do que os do Adamastor; presença, companhia, apenas um cão de fuças arreganhadas e a restante bicheza da mata que mantinha à distância por nada querer com tão inditoso par.
De que vivia aquela criatura, perdida do mundo da gente viva, a cheirar tão mal como – com vossa licença – um cortelho de porcos e a dormir por baixo de uma fraga sem companhia de mulher, como seria razoável?
Do jeito que ides ler, assim assegurava sustento e fortuna este arrenegado personagem.
Tinha ele posto uma campainha, dessas que os pastores colocam na pescoceira do gado, presa a um barbante que atravessava de lado a lado o caminho por onde costumavam passar alguns viajantes e almocreves. Com tal disposição mantinha o homem estratagema manhoso: mal fosse tocado o fio, esticado como uma corda de viola, logo o badalo da campainha dava de si, alertando-o para uma presa, tivesse ela um número indeterminado de pernas. Logo saltava a desgrenhada criatura, com a visão afeiçoada à penumbra, munida com um pau comprido e grosso. Caía sobre a desprevenida vítima e vá de malhar. Os mais infelizes deixavam lá os ouros, os potes de azeite e tudo o mais que levassem.
De uma coisa estamos certos. Desapareceu a enigmática avantesma, ficou a sua triste fama, que consagrou o topónimo do lugar – Cova do Ladrão.
Os do Brio e os da Zurra
Desentendimentos entre povos vizinhos também trazem uma pequena lenda colada ao antigo povoamento da Vila Sousa. Uns viviam no Barrocal do Brio e outros na Zurra Canastra, mas parece que a terra não era suficiente para cada um deles. Armavam guerra entre uns e outros, de tal sorte que o local acabou por ficar deserto.
A Fonte da Moura
Diz-se que esta fonte também é conhecida por Fonte das Fadas. No entanto, esta fonte está relacionada com outro fado triste de uma moura, filha bastarda do alcaide mouro de Moreira. O desalmado pai resolveu desterrar a filha no vale, dando-lhe aqui as terras, mas ela refugiou-se entre o Monseco e o Barreiro.
Ali teria encontrado a fonte de onde brotou a água que ela bebia, se é que a fonte não terá nascido, como em outras lendas do género, das lágrimas que a mourazita verteu no desterro.
As Formigas
Segundo outra breve lenda, o povoado situou-se no vale dos Cordeiros, terra fértil que era, perto dos cursos de água. Porém, as formigas começaram a ser muitas e a atacar as criancinhas, pelo que o primeiro recurso dos habitantes foi o de colocarem os filhinhos em cestos pendurados em ramos de árvores. Nem assim se livraram dos regimentos de formigas. A solução foi eles abandonarem as casas e construírem em sítio, mas elevado.
Referências:
Santos Costa – Valdujo: Três Povoados – Um Povo. Edição do Autor, 2011.
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